"(...) e o poema miragem se desfaz desconstruído como se nunca houvera sido." Waly Sailormoon
domingo, 21 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Strip Teasouro conto?
“eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível”
Cogito- Torquato Neto
Strip bones, de ossos tentando trepar e escorregar nos absurdos, nos abraços dos outros. Eu queria que os meus ossos correspondessem à vontade do poste, de ser vagabundo dentro de mim.
Só porque eu queria ser cantora que nem a Courtney Love? Só porque eu queria usar camisa xadrez e beber água da torneira para desenrolar cabelos loiros alisando o meu ego (aquele mesmo que revestia meus ossos)? Isso não é motivo suficiente para já ir tomando o meu pé como endereço sem nem mesmo ter a decência de saber do meu nome. Meu nome, linha de domínio, fronteira principal e abstrata entre mim e tudo que não me é a minha volta, entre mim e as camisetas dos meus iguais, entre o fim do meu vestido e o começo da sua boca. Meu nome, (com)prova inquestionável da minha matemática de vida: “quem manda nessa porra aqui SOU EU”, quando a porra sou eu mesma. Meu nome, meu único acessório que se expõe como prenhe e ao mesmo tempo autônomo de mim, sem estar disposto para o consumo alheio.
Só quero dizer que mesmo tendo um nome corriqueiro, eu tenho um e um que eu escolhi, assim que resolvi deixar quem (me era, mais do que) eu era para aquém da porta de meu quarto. E se quisesse ter feito do meu nome arruaceiro, mesmo como uma mentira antes comprada do que inventada, de qualquer forma me seria direito já no meu DNA! Minha vida tão importante para mim, calculada por carências, por fórmulas exatas chantageadas, por “porquês” incoerentes com suas frases... Tá bom, admito, queria ser bastarda e abastada no mesmo cômodo. Queria poder desfrutar de quantos opostos quisesse, dentro da minha pele deslumbrada. Queria, mais do que tudo, pedir o carinho daquela música; pedir que ela me adotasse e me levasse pela mão, de modo que pudesse exibi-la como um troféu.
1998. Com quatro anos, ao cair no vídeo de Cross Bone Style quando estreava, eu já tinha a habilidade de pisar na cabeça de qualquer um que me negasse condecorações (dentro da minha cabeça). Decidi com meu namoradinho imaginário que ouviríamos essa música e só essa música, até o momento em que eu estivesse velhinha o bastante para conhecer o menininho e casar com ele. Ao longo dos anos, depois de receber pessoas de verdade que, dentro do meu próprio quarto, lembravam de outros nomes e me pediam para escutarmos outra música além de Cross Bone Style, desisti das pessoas que me faziam e me viam óbvia em qualquer hora e ponto de esquina. Desistia tanto das pessoas oficializadas quanto das virtuais.
Conforme traía signos, movida pelo meu ego ferido por eles,
eu sentia mais e mais vontade ou de encaixotar meus discos ou de queima-los. Ou
de ler meus livros ou de fazer deles um vestido de retalhos; mas acabava sempre
escolhendo pelas sobras de maçã na geladeira e esquecia de tudo. Percebi
inclusive que cortar o cabelo começava com uma dúvida cara. Rasgar as fotos e
os poemas da parede era a resposta para uma dúvida besta. Não era do meu quarto nem do meu pijama que
eu ia embora, ao ter conseguido transformar cada neurônio nos gestos que a
coreografia do clipe pedia. Não precisava nem retomar aqueles gestos pra me
explicar; não tinha ninguém em especial que carecesse de me saber indo.
Eu contraía riscos no meu pé conforme contrariava as regras da minha casa. Aí, achei melhor ir embora. Dava pra dormir por duas horas lá? A Consolação era o shopping mais vazio que eu tinha visto. No corpo dela já era Natal. Adorava a maneira como as lojas de luzes com seus enfeites e bolas montavam uma expectativa do natal. Imaginava as crianças tendo a ilusão do natal na loja de enfeites: fetiches da expectativa natalina, almejada como um prazer sexual. Enganavam as pobres; faziam as crianças retrocederem à seus fetos prematuros dois meses de suas vidas pois, na consolação, já era dezembro. O dezembro de plástico mais fulero que já tinha visto. Mas não posso me pretender superior em relação aos pobres senhores que acreditam cegamente no dia de ganhar presente. Muito menos comparada as jovens mulheres que querem ser homens velhos e o vice versa da dúvida própria.
(continua, vá...)
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
o que o umbigo instala
"Todo ojo que me mira
me multiplica y dispersa
por la ciudad"
Alfonsina Storni
eu escolho amigos úteis e íntimos
eu capto, com medalhas falsas, os beijos dos casais
tanto na calçada quanto em cima do muro de mim
eu roubo as cores das peles dos outros, só com o olhar
quando espero para usar pés de moscas ou motoristas
despidos dos faróis possessivos
Na rua, meu olhar se torna parasita
de ser em mim esses todos que me interrompem sem cheirar
e roubam e vendem e divulgam minhas valas por aí
distribuo, pelas sacolas do metrô e das bancas,
comprimidos que fazem efeito
de acordo com a úlcera de cada trejeito (particular)
que pise no que eu queira de bruto em mim
cobrindo com panos o vácuo do que está por vir
conto com o fio de brasa que, brusco, estala
nas minhas OMOPLATAS (magras, sprays de prata)
para, de mim, ser satélite que rastreia
crianças atrizes que me são para alem da minha pele
crianças cujas faces atraem máscaras-
aquelas que, quando no assoalho da minha cara,
cederam-
e que, com caderninhos, penteiam o que NÃO vêem no museu, no esgoto, nos túneis embrionários
me multiplica y dispersa
por la ciudad"
Alfonsina Storni
eu escolho amigos úteis e íntimos
eu capto, com medalhas falsas, os beijos dos casais
tanto na calçada quanto em cima do muro de mim
eu roubo as cores das peles dos outros, só com o olhar
quando espero para usar pés de moscas ou motoristas
despidos dos faróis possessivos
Na rua, meu olhar se torna parasita
de ser em mim esses todos que me interrompem sem cheirar
e roubam e vendem e divulgam minhas valas por aí
distribuo, pelas sacolas do metrô e das bancas,
comprimidos que fazem efeito
de acordo com a úlcera de cada trejeito (particular)
que pise no que eu queira de bruto em mim
cobrindo com panos o vácuo do que está por vir
conto com o fio de brasa que, brusco, estala
nas minhas OMOPLATAS (magras, sprays de prata)
para, de mim, ser satélite que rastreia
crianças atrizes que me são para alem da minha pele
crianças cujas faces atraem máscaras-
aquelas que, quando no assoalho da minha cara,
cederam-
e que, com caderninhos, penteiam o que NÃO vêem no museu, no esgoto, nos túneis embrionários
quinta-feira, 26 de julho de 2012
SAGRANDO E SANGRANDO
sagrando e sa(n)grando
dentro das vulvas, dos caralhos
(dos burocratas e dos caminhoneiros)
dos bares, dos quartos de hospital
dos escritórios
dentro de tudo que nos é cidade
dentro dos subterrâneos
dentro dos prazeres subterrâneos a nós
e dentro dos nossos subterrâneos próprios
(ou hipotecados)
Sagrando e sangrando
as partes e aos quartos DE nós mesmos
à nós avessos
que não foram transmutados nem travestidos
de luxos, de esquinas, de textos nem de poesia
Personificando
os seres que nos matam de dentro pra fora
que são dentro de mim pelo meu único ser
Sagrando e sangrando
as páginas de nós estagnadas
(e que nos mantém estagnados)
em nós mesmos!
Respirando o ar que não assistimos
(que não nos é vulto)
Respirando as moléculas
que monopolizamos e molhamos
sendo as pessoas que inspiramos
e expirando tudo que não somos,
tudo que nos é estranho e estrangeiro
Sagrando e sangrando
o que não conhecemos e cobiçamos
sangrando o que não queremos ser
dentro de nós
sendo tudo que não nos é pele
assumindo a pele de todos os povos
e de todas as formigas
sangrando para além do que somos
sagrando respeito a tudo que seremos
dentro de nós, dos planaltos e dos esgotos
(em segredo)
GOZEMOS!
dentro das vulvas, dos caralhos
(dos burocratas e dos caminhoneiros)
dos bares, dos quartos de hospital
dos escritórios
dentro de tudo que nos é cidade
dentro dos subterrâneos
dentro dos prazeres subterrâneos a nós
e dentro dos nossos subterrâneos próprios
(ou hipotecados)
Sagrando e sangrando
as partes e aos quartos DE nós mesmos
à nós avessos
que não foram transmutados nem travestidos
de luxos, de esquinas, de textos nem de poesia
Personificando
os seres que nos matam de dentro pra fora
que são dentro de mim pelo meu único ser
Sagrando e sangrando
as páginas de nós estagnadas
(e que nos mantém estagnados)
em nós mesmos!
Respirando o ar que não assistimos
(que não nos é vulto)
Respirando as moléculas
que monopolizamos e molhamos
sendo as pessoas que inspiramos
e expirando tudo que não somos,
tudo que nos é estranho e estrangeiro
Sagrando e sangrando
o que não conhecemos e cobiçamos
sangrando o que não queremos ser
dentro de nós
sendo tudo que não nos é pele
assumindo a pele de todos os povos
e de todas as formigas
sangrando para além do que somos
sagrando respeito a tudo que seremos
dentro de nós, dos planaltos e dos esgotos
(em segredo)
GOZEMOS!
sábado, 26 de novembro de 2011
Eu não sou dona nem da minha barriga
(pois eu tenho vergonha de ter parido em mim o que eu não era e de ter mostrado pra você)
Eu sou uma mulher vendada
Acariciando a barriga minha
Eu tenho um corpo vulnerável e cheio de medo
E a barriga minha é estéril de bebê
E de qualquer coisa que vive por si mesma,
Pois qualquer nascimento em mim não é espontâneo
(eu pressiono muito)
Pois ela é barriga d’água
Barriga d’água que me afoga e me engana
Me engana e, portanto, mata a minha fome
Porque me impede de ver o que viola
A minha criança mimada
Eu sou uma mulher vendada acariciando
A minha barriga embalada a vácuo
E se meu ouvido ainda escuta,
tá entupido pra qualquer um
Que não seja eu
Eu sou uma mulher vendada
acariciando a minha barriga cheia d’água
Por isso não me pergunte mais nada
Que eu achei que soubesse responder
Não se aproveite do fato
Que eu sou uma mulher pelada
Em frente ao espelho que me ignora
E que, mesmo não tendo mãos,
Arranca, com desprezo, o meu vestido de bolinha
Não me pergunte por que eu menti pra você e pra mim
Não me pergunte por que eu exijo colo
de quem eu não conheço
por falta desse bebê que eu não senti
Não me pergunte por que eu gosto de chorar assim
(sendo que agora tenho que mendigar lágrima na rua)
E eu sou uma mulher vendada
Que acaricia a barriga pesada
(que acha que tem o bebê que me enganou e que me fez fugir do meu destino), portanto,
Não pode ser responsabilizada por ter brincado de ser
(ou parido) aquilo que queria, mas nunca foi
Eu sou uma mulher vendada (que acaricia a barriga de uma desconhecida nua, que convive no mesmo corpo instável)
Que merece pena
Por ter que se contentar em ser o que é
Sendo que se resumir apenas ao que se é, é frustrante
É frustrante e coça na minha pele de tritão
Por isso eu uso venda antialérgica nos olhos
Por isso eu uso máscara tirada do lixo do final da festa
Para ser um pouco mais do que esse eu estéril
Pra ser uma mulher vendada que
Acaricia a barriga nua como se tivesse companhia
E mama do leite que gerou por gravidez psicológica
Como se fosse capaz de parir o próprio presente
Vou embora do tempo
Nem que eu tenha que sair da minha barriga, repetidas vezes
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